"ESTRANHO COMO AS PESSOAS"

São Paulo é uma Meca. No sentido de que reune aqui gente de toda parte do país (e de fora também), no geral com um objetivo em comum (não, claro que não é rezar): ter maiores/melhores oportunidades de crescer e viver bem. Eu vim por isso. Chegando aqui pude conhecê-la melhor e me identifiquei muito. Me adaptei bem e algumas coisas até surpreendem, como a minha rinite alérgica que aqui fica ótima, ao contrário do quando vou a Salvador (ou qualquer cidade de praia, claro).

Conheço pessoas que, infelizmente, conseguiram o que vieram buscar, mas nunca se deixaram seduzir pela cidade e assim continuam se sentindo infelizes.

Claro que parte disso se deve às características de Sampa, mas outra parte grande se deve ao que cada um de nós define como felicidade, ou mesmo como qualidade de vida - fator que muitos acham limitante em sua experiência aqui. 

Fato é que, felizes ou não, somos muitos e muito diferentes aqui em Sampa. E sempre brinco com meus amigos chamando os paulistanos de 'ET de Varginha' - todos dizem que existe, mas ninguém nunca vê. É muito comum nos vermos em mesas de bar com amigos e não haver um nativo sequer...

E a diversidade daqui... ah, essa tal diversidade é uma coisa bárbara - no bom sentido da coisa. As possibilidades são tantas e as pessoas aqui parecem querer tirar partido disso.

Há quem não goste e critique. Há quem viva em guetos. E há guetos para diversas tribos. Ou seja: até nisso se manifesta a diversidade da cidade!!!

E já que o assunto foi esse, vou falar duma série que explora muito o tema...

QUEER AS FOLK

   

Confesso que eu demorei pra assistir porque há trocentos anos assisti os primeiros capítulos da versão britânica e odiei - talvez não estivesse pronto então, ou talvez porque uma abordagem sexual tão explícita num programa feito na Inglaterra sempre tenha me soado tão fake. O que foi preconceito de minha parte com os ingleses, admito.

Fato é que nas férias de dezembro comecei a baixar e assistir os episódios e só consegui acabar agora as 5 temporadas, de uma vez só. Sei lá, assim é interessante pra se ter uma visão geral da série, perceber rumos e até tentar entender o porquê de ter acabado. Os próprios produtores e roteiristas alegam que 'nada mais havia a ser dito', e eu respeito muito esse argumento - o mesmo que foi usado pela equipe de 'Os Normais', quando a série parecia estar em seu auge. OK, assim se sai de cena por cima da carne seca.

Como falar sobre cinco temporadas de uma série sem matar alguém do coração com um spoiler inadvertido? Well... vamos lá.

A série foi transmitida originalmente entre 2000 e 2005, portanto é possível hoje falar 'de longe'. E é incrível como ela consegue se manter tão atual - e ainda deixa a impressão de que tem anos de 'validade'. Quer dizer, ou a coisa é mesmo fenomenal ou nós paramos no tempo e não evoluimos nadica de nada desde então.

Brevíssimo resumo da ópera: a série conta a vida de 4 amigos gays (Michael, Brian, Emmet e Ted), seus futuros agregados (leia-se namorados e afins), um casal de lésbicas (Melanie e Lindsay) e da mãe e tio de Michael (Debbie e Vic). Quando se olha o material promocional da série, especialmente as fotos, tem-se a nítida sensação de que tudo gira em torno de Brian (Gale Harold), mas com o passar das temporadas eu diria que a personagem mais marcante da série sem dúvida é Debbie (Sharon Gless, absolutamente fabulosa). Michael e Brian são amigos de infância e parece sempre ter havido um grande amor entre ambos, algo nunca vivido na prática - especialmente porque Brian não acredita em relacionamentos entre 2 homens, apenas no sexo. O surgimento de Justin, um adolescente de 17 anos, é o que dá a entender será o início de uma longa jornada de transformação pra Brian... será? Pois é. Só assistindo pra saber...

Ao longo dos anos os personagens crescem, começam e terminam relacionamentos, vão e voltam do fundo do poço, brigam entre si e passam tempos sem se falar, depois reatam. Uma coisa, no entanto, permeia todas as histórias: o valor e a importância da amizade. Mais do que isso até - e aqui pode atirar a primeira pedra quem discordar: grande parte dos homossexuais assumidos vive suas vidas distantes dos familiares de sangue. Muitos são até aceitos por seu núcleo familiar, mas não trazem seus parceiros e amigos pra dentro da grande família, vivendo toda uma parte de sua vida à margem. Com isso, muitos acabam adotando o grupo de amigos como uma nova família - um grupo de pessoas com as quais ele se identifica e por quem é acolhido e aceito. Em algum momento da quarta ou quinta temporada um dos personagens chega a dizer que eles todos formam uma grande família mantida unida pelo poder da grande Mãe (Debbie). Isso me parece ser o cerne da questão, a mensagem principal que a série quer passar.

A lista de assuntos abordados ao longo dos 5 anos da série é enorme e relevante: sair do armário, casamento entre parceiros do mesmo sexo, uso e abuso de drogas e drogas recreacionais (isto é, maconha, cocaína, metanfetamina, ecstasy, GHB, ketamina etc), adoção por gays, inseminação artificial e direitos de paternidade, agressão copntra gays, sexo protegido, a vida com infecção pelom HIV e AIDS, discriminação dos gays no ambiente de trabalho, prostituição de menores, padres gays católicos com vida sexual ativa, a indústria da pornografia na internet e os 'bug chasers' (caras HIV-negativos que tentar se infectar engajando-se em barebacking). Situações complicadas, porém abordadas com muita clareza e correção.

Resumindo, assistir à série é uma experiência marcante... nada nunca foi igual e até hoje é incrível imaginar que um produto como aquele foi tão bem aceito durante 5 anos... Bom, imagino que sem ele nunca teríamos 'L Word' hoje...

Definitivamente entra na categoria 'must see'!!!

Fui!!!

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